top of page

HALLOWEEN BONUS - Sneak Peek: Marcadas Pela Escuridão


VIII – Dolorosa Lição

Eloise






— MAVHENNA, SE ABAIXE!

A voz de Avalon me alcançou dois segundos antes do cilindro maciço de argamassa me acertar em cheio.

Desviei por instinto, mas outro mero instante e aquilo teria esmagado meus ossos — os ossos de Odette — contra a parede. Por mais que fosse sensacional conseguir verdadeiramente sentir coisas outra vez em posse do corpo da minha irmã, essas coisas não eram lá muito legais quando se tratavam de dor e agonia consideráveis.

Lancei um olhar agradecido a Saetang, mas ela estava muito ocupada brandindo seus daabs, sabres tailandeses curvos bem afiados e maus, contra a besta tâmil que estava tentando abocanhá-la com uma das oito bocarras. Eu bufei com a irritação ao me erguer do chão empoeirado, grunhir e sacar o celular num gesto agressivo.

Illya atendeu depois de dois toques.

— Você disse que o círculo de pedra ungida funcionaria! — Vociferei, antes mesmo que ela conseguisse dizer “alô”.

Kerazoi suspirou, nada afetada pelo meu tom exaltado, culpa da visão dos milhares de dentes daquela coisa (que mais parecia um sapo afogado, murcho e bem grande) tentando fazer Saetang virar uma bela de uma papinha tailandesa.

—Certo. Tentaram as lâminas astrais? — indagou ela num tom cansado, como se eu estivesse atrapalhando seu chá da tarde com minha situação letal em vigência. — Embebi o daab de Avalon com sangue de víbora cambojana, elas deviam estar enfraquecendo a besta.

—Bom, a cada vez que as espadas o atingem, a coisa fica mais brava e mais determinada a acabar com a nossa raça, então eu diria que “enfraquecendo” é uma palavra relativa!

—Se o círculo de pedra não conseguiu contê-la, tudo que podem fazer é cansar a besta até que consiga controlá-la com as habilidades de Rhakfasa.

— E se eu estiver cansada demais para fazer isso até lá?!

Pude praticamente ouvir o sorrisinho compadecido que Illya abriu do outro lado da linha.

— Então eu suponho que poderei tirar o lugar de vocês duas da mesa de jantar e da lista de pagamento desse mês.

— Garota, sério! Você precisa de um coração! E de um terapeuta!

Rosnei um xingamento em português não muito educado ao encerrar a ligação e enfiar o aparelho no bolso, mas ainda consegui ouvir o riso entretido de Kerazoi do outro lado da linha antes de desligar. Ela era assim, irritantemente composta e despretensiosamente inflexível: às vezes agia como se as coisas importassem, às vezes não dava a merda da mínima. Talvez fosse uma coisa de gente russa, mas era provável que a característica fosse resultado da convivência prolongada com Dantalion.

Eu nunca descobriria se continuasse parada no lugar esperando aquele monstrengo terminar com Avalon para vir me jantar de sobremesa, no entanto.

Me concentrei e assumi a forma de um demônio-serpente — uma criatura inferior que eu tinha absorvido mais cedo especialmente para aquela função, também sob a instrução de Kerazoi. A arma de Saetang estava coberta com sangue de cobra porque, aparentemente, a besta tâmil não gostava muito de répteis, e a distração funcionou bem até demais.

O único e enorme olho localizado na barriga enrugada se arregalou e oito tratos intestinais ficaram visíveis quando as bocarras rugiram na minha direção, deixando Avalon de lado para sacolejar o gigantesco corpo encharcado até onde eu estava, cabeças sibilando e cortando o ar acima de mim.

— Suco de pózinho! — cacarejei, desviando da primeira fileira de dentes instantes antes da minha primeira e única decapitação precoce. — Você por acaso gosta de Taylor Swift?

Consegui enxergar a careta incrédula de Avalon mesmo daquela distância, com a visão obstruída por um demônio de quatro toneladas e mais de meia dúzia de pescoços.

— Sério, Mavhenna?! Está me interrogando sobre meu gosto musical agora?!

— Sabe, eu não ando com ninguém de gosto musical duvidoso — funguei, ao deslizar por baixo das três pernas da besta e sair ondulando no corpo reptiliano para alcançar Saetang, arfando do outro lado do depósito abandonado, sabres em riste nas mãos ensanguentadas. — Mas o que eu queria mesmo saber era se você já ouviu Death By A Thousand Cuts![1]

O semblante da espiã se iluminou com uma compreensão sombria quando ela posicionou os pés e girou os daabs de um jeito ameaçador.

—Podia ter só falado que quer que eu picote essa merda de coisa em pedacinhos.

Acenei com a mão, arfando de leve. Odette parara com os cigarros por insistência minha e pela necessidade de esforço físico durante os trabalhos, mas os pulmões da minha caçula sempre acabavam tropeçando e chiando nas horas erradas.

—Só pequenos cortes, deixe o vodu que Illya fez na sua espadinha agir nesse troço — apontei para o demônio furioso se voltando para nós. — Com sorte, vai enfraquecê-lo o bastante. Deixe o resto comigo.

Sabe, Avalon podia até ser casca-grossa e escorregadia feito manteiga quando se tratava de criar laços emocionais, mas com certeza era eficiente. A besta estava resfolegando e sangrando fluidos escuros aos litros em poucos minutos, agora que o objetivo (consideravelmente mais fácil) não era matá-la e sim deixá-la vulnerável.

Vulnerável para mim, é claro.

O poder adormecido de Odette se agitou nas minhas veias quando o demônio perdeu poder o suficiente para adentrar o território de influência dela. Eu era uma das poucas criaturas infernais que conseguia acessar o poder do próprio hospedeiro, porque não tinha controle da minha irmã por completo. Afinal, assim que a consciência do corpo que seres astrais tomavam se esvaía, por meio de uma possessão completa e irrevogável, as habilidades também se perdiam junto. O que sobrava era a casca, um simples amplificador para os poderes do próprio demônio ou entidade.

Mas Odette ainda estava ali, ainda estava sã e em posse do próprio corpo, apenas voluntariamente o emprestando a mim no momento, então eu era capaz de acessar o dom mórbido de controle enunciativo da minha caçula, intensificando o poder dela assim como ela expandia o meu.

As palavras vieram até a ponta da minha língua quando voltei à aparência de Oddie e ergui as mãos marcadas com símbolos profanos e cicatrizes grotescas, agora descobertas e sem luvas de dedo:

Ettuvāykaḷ! — rosnei, me deliciando com o lampejar de pavor no único olho esverdeado da besta tâmil. — Comedor de Moscas, Predador dos Afogados, Duque Sangrento de Chennoi — recitei, me impressionando internamente com a quantidade de títulos. Aquele devia ser um nível oito ou nove. Com certeza não estava para brincadeira. — Sente e dê a maldita da patinha agora, seu desgraçado nojento e cabeçudo.

A besta soltou um urro indignado, se contorcendo em revolta ao poder de Odette — mas não teve escolha a não ser obedecer à minha ordem desdenhosa. Duas das três imensas pernas se dobraram, a única restante se erguendo ao meu comando, e as oito cabeças se abaixaram em submissão.

Avalon soltou uma gargalhada jocosa, se aproximando para limpar os sabres na pele enrugada do demônio subjugado, para logo em seguida guardá-los nas bainhas apropriadas, uma de cada lado da cintura. Uma das bainhas era dourada, decorada em cobre, e a outra, prateada, adornada com ferro — a primeira, para o daab de lâmina execrada, eficiente contra entidades; e o segundo, para o de lâmina etérea, usada contra demônios, o que Illya tinha embebido em sangue de víbora.

Uma arma daquelas já era extremamente cara e incomum, já que requeria um processo dificultoso e quase mortal para ser produzida, e Saetang tinha duas enormes, uma para cada tipo de inimigo que enfrentasse.

Só uma das dezenas de benefícios que o fato de sermos sócias do clubinho Dantalion oferecia.

—Você demorou a se tornar útil, hoje — Avalon comentou de súbito, ainda com os olhos ferozes cravados na besta agora subserviente. — Está com a cabeça longe?

—Será que preciso lembrá-la de que fui eu que adestrei essa coisa, literalmente dois segundos atrás?

—Depois que eu honrei sua homenagem macabra à Taylor Swift, talvez sim — concedeu ela, dando de ombros. — Mas mesmo isso demorou para acontecer. Você estava aérea.

Bom, sim. Ela estava certa, costumávamos lidar com aquele tipo de problema bem mais rápido, mas o obstáculo não fora só eu. Estar em posse do corpo da minha irmã sempre me deixava mais vulnerável a sentimentos e sensações, mesmo que eu valorizasse cada minuto com a minha pobre e condenada alma. A cabeça de Odette também estava bem distante dali, o que não ajudava em nada, mas o fator principal do meu descuido com certeza era o fato de estarmos em Cleveland — o lugar onde eu vira Quebec, meu fantasma canadense alado do natal passado, pela última vez.

Sim, isso fora há quase uma semana e era improvável que ele continuasse por ali, mas o nervosismo ainda estava corroendo minhas entranhas fictícias. A entidade e seu esquadrão ainda poderiam estar procurando rastros de Kazura pela área, entretanto, então todo momento que ficávamos ali era um momento no qual ele poderia topar comigo, então tratei de apressar Saetang:

—Estou ansiosa pelo lançamento de uma linha de sobretudos da Dior amanhã — menti com naturalidade. — E quero voltar antes que eu perca a chance de reservar os meus, obrigada.

Avalon ergueu uma sobrancelha escura.

—É mesmo? Qual estilista, e de que coleção?

Ah, merda. Esqueci com quem estava falando. Aquela espiã de araque gostava tanto de se empanturrar de roupas caras quanto eu — e com certeza iria atrás da informação falsa, nem que fosse para me desmentir.

—Oh, tudo bem — revirei os olhos, me desculpando em pensamento com Odette por usar a justificativa dela. — Rhakfasa levou um bolo de um cara na segunda. Ela está um pouco irritada, e consequentemente, eu estava distraída. Feliz?

Todos fora da confiança extrema de Dantalion — ou seja, todo mundo além de Illya e Eisheth — pensavam que Odette era uma humana poderosa que tinha feito um trato comigo. Era uma troca de vantagens mútua não muito comum naquele meio, mas ainda passível o suficiente para se fazer acreditar. Eles a conheciam como Rhakfasa, uma mulher de temperamento cruel, habilidade impiedosa, língua afiada e nada mais, por isso o sorrisinho penoso que curvou os lábios finos de Saetang era completamente justificável.

—E o pobre coitado ainda está vivo?

—Se não estivesse, ela com certeza não estaria tão irritada.

Além disso, nós não matávamos humanos inocentes. Galen Weidmann não tinha feito nada de errado além de vacilar com minha irmã no dia do aniversário dela — era motivo o suficiente para esfolar as bolas do imbecil com uma lixa de unha, sim, mas matar, não.

—Ande logo com isso, então — a espiã indicou a besta tâmil com a cabeça. — Se bem conheço Rhakfasa, ela com certeza vai querer exulcerar os testículos do sujeito até deixá-los em carne viva.

Sim, minha irmã tinha uma pequenina reputação. Algumas partes dela eram piores que as da minha, inclusive, o que fizera Avalon “gostar” — do jeito “Avalon” de gostar — dela logo de cara. As duas tinham zero papas na língua e zero paciência para homens, então se davam muitíssimo bem, o que fazia um belo trabalho em me dar insônia à noite.

Não, eu também não dormia mais, então tecnicamente não tinha insônia de verdade, mas enfim, foi uma figura de expressão. Vocês entenderam.

Me virei para a coisa ainda se retorcendo de leve à nossa frente com um suspiro.

Alguns demônios chegavam a implorar, naquela parte do processo. Os mais novos, principalmente, ou os mais inferiores. Aquela criatura era velha, no entanto, e já perdera toda e qualquer consciência humana; era apenas feita de instinto e fome e brutalidade. Não houveram pedidos por clemência ou piedade, apenas ira crua e revolta contida.

Deixei minha própria essência assumir o controle por cima da de Oddie, e espiralei ao redor da criatura numa nuvem escura e rarefeita. Senti a existência dela se extinguindo e curvando à minha, não pacificamente, obstante. Ela lutou e rugiu e se desfez em espasmos teimosos, mas estava fraca demais para resistir.

O corpanzil desprezível cheirando a carne úmida podre começou a soltar uma fumaça azulada, talhos e buracos ocasionais se abrindo na epiderme putrefata, as cabeças pendendo dos pescoços e o único olho derretendo onde estava alojado na barriga.

O poder daquela coisa — um predador de pântanos, um devorador de rios — cedeu diante do meu, e foi absorvido como dezenas de outros antes dele. A casca que um dia fora seu corpo se tornou um amontoado enegrecido e disforme de membros, ainda soltando vapor e enxofre, mas a consciência perversa e o poder considerável foram unidos a mim. Silenciados, dominados, diminuídos, mas ainda assim presentes.

A cada grama de poder como aquele, eu crescia mais e mais em poder e influência demoníaca. Dantalion dizia que me seriam oferecidas tropas e títulos dignos de nota assim que eu fosse expurgada pela primeira vez, consequentemente mandada para o inferno, coisa para a qual eu não estava exatamente ansiosa, mas... Era o preço a se pagar pelo poder aproximado de uma duquesa infernal. Estrela-da-Manhã gostava de manter o poder sob suas mãos, dizia Dante, e ele fazia isso muito bem. Recompensava os que seguiam suas regras, punia os que tinham a estupidez de lhe desobedecer.

Eu não tinha sido pega e levado um chute angelical na bunda ainda, o que era raro para um demônio jovem, mas justificável considerando minhas habilidades e as da minha irmã, considerando o histórico da minha família e depois, nossa aliança com Dantalion. Quando me tornei poderosa o bastante para representar uma ameaça à Ordem e seus redentores, eu também já estava poderosa demais para que conseguissem me derrotar com facilidade, o que me permitira escapar do expurgo até então.

Mas Quebec e seu esquadrão de serafins conseguiriam fazê-lo, conseguiriam me tirar dos planos terrenos e me enviar para o plano infernal.

Me tirar de Odette e deixá-la relativamente vulnerável a ameaças externas e internas.

E isso, com ou sem dívida de vida, eu nunca permitiria.

Eu e Avalon saímos de lá logo em seguida, antes mesmo da carcaça da besta tâmil esfriar.


***


—Odette, qual minha cor favorita?

—Fúcsia.

—E qual meu animal favorito?

—Acho que Samoyedas, no geral — minha irmã balançou a cabeça, confusa. — Que tipo de pergunta é essa?

—E qual é meu filme favorito?

—As Patricinhas de Beverly Hills — ela respondeu de pronto, revirando os olhos, e senti orgulho mesmo com a irritação leve que me abateu com aquele último gesto. Eram indagações importantes! E aquele era um ótimo filme!

Continuei antes que ela pudesse me interromper outra vez:

—Minha artista ou banda favorita?

—Lizzo? Marília Mendonça? Billie Eilish? Iza? Você muda toda semana.

Meu rosto se contorceu no mais puro horror, mas a expressão de Odette subitamente se empolgou de modo frenético.

—Beyoncé! — gritou ela, satisfeita. — Beyoncé, lembrei. Tenho certeza.

Soltei um grunhido desconfiado, um pouco aliviada. Se ela tivesse demorado mais alguns meros segundos para responder corretamente, eu a teria feito assistir a I Am World Tour, Life Is But A Dream e Homecoming todas seguidas e sem pausa comigo pela vigésima oitava vez.

A morte te dava bastante tempo livre.

Segui adiante:

—Qual é meu passatempo favorito?

A compreensão iluminou o rosto dela.

—Muito provavelmente o que você está fazendo agora — suspirou Oddie, se inclinando por cima de Bastman para alcançar a guacamole, equilibrando o fichário precariamente no colo. — Isso é um teste do Buzzfeed, não é?

—Sim, mas agora, qual é minha maior qualidade?

Minha irmã revirou os olhos outra vez, refletindo com uma careta.

—Você é bem talentosa quando se dedica a atividades estéticas.

Emiti um barulhinho indignado, aprumando as costas de supetão.

—Quer dizer que acha que minha maior qualidade é saber me arrumar?!

—Qual é a próxima pergunta?

Fumegando em silêncio no sofá da nossa luxuosa sala de jogos, eu respondi só porque queria mesmo saber a resposta que ela daria para a questão seguinte.

—Qual meu maior defeito?

—Narcisismo. Vaidade. Arrogância. Empáfia. Soberba — enumerou ela, alegre. — Você pode escolher.

—O que diabos significa empáfia?

—É só outro sinônimo para presunção ou orgulho.

—Você é ridícula. E aposto que essa última você não acerta. Qual meu objeto favorito, Oddie, querida?

Ela parou, acariciando a cabeça daquele gato descomunalmente grande e preguiçoso de maneira distraída.

—Espelhos.

Eu abri a boca, pronta para rechaçá-la com todas as minhas forças, mas nenhum som saiu.

Bom, que merda.

Se eu ainda estivesse viva e pudesse corar, teria ficado vermelha. Não havia muitas dúvidas, de acordo com o Buzzfeed; Odette realmente me conhecia, talvez até melhor do que eu mesma, porque ela era ótima naquilo de observar comportamentos alheios e analisar personalidades. Eu estava pensando em algo como meu iluminador favorito, ou a calça de couro que eu mais usava, mas um espelho era uma opção bem melhor. Afinal, sem ele eu não poderia admirar a mim mesma usando o dito iluminador ou a tal calça, certo?

Oddie sorriu, vitoriosa.

—Você não tinha pensado nos espelhos, não é?

—Não — grunhi, emburrada. — Enfim. Parabéns, você me conhece no nível que a Kendall Jenner conhece a Gigi Hadid, ou que a Carrie conhece a Samantha.

Ela colocou a caneta de lado para bebericar do seu copo temático bobo, em cujo se podia ler a frase "the sunny side of the force" [2]seguida por um cartoon do Darth Vader de sunga apreciando um mojito numa câmara de bronzeamento feita de sabres de luz vermelhos. A vasilha de nachos, por sua vez, também tinha alguma referência nerd a Doctor Who, ou a Senhor dos Anéis, ou à Mulher Maravilha, ou a qualquer outra merda geek que Odette gostava. Havia milhares daquelas coisas espalhadas pela casa. Inúmeras pequenas estatuetas, livros, dvds, quadros, canecas e almofadas.

Nós ficávamos ricas e ela fazia o quê? Gastava montes absurdos de dinheiro naquele tipo de coisa. Ostentação nerd no sentido mais cru da palavra.

Era humilhante.

—Às vezes me pego feliz ao lembrar do fato de que você não terá descendentes — o rosto inexpressivo somado ao contraste dos olhos brilhantes da minha caçula me fez concluir que eu provavelmente seria insultada. — Porque, sendo franca, pensar que meus sobrinhos ainda herdariam somente metade do seu intelecto...

Revirei os olhos ao jogar uma almofada na cabeça dela.

—Considerando que você é a única que pode dar algum tipo de continuidade à nossa família, maninha, eu também me pego bastante preocupada com o fato dos meus sobrinhos saírem todos maníacos por controle com nada na cabeça além de livros empoeirados e insultos cínicos.

—Seriam o orgulho da mamãe.

—E a ruína da titia — funguei, desgostosa. — Vou ensinar uma filha sua a se maquiar como uma profissional nem que eu tenha de raptá-la para fazer isso.

—Boa sorte — minha irmã riu baixinho, voltando a se concentrar no trabalho tedioso em suas mãos.

Eu sabia muito bem que Odette não queria se casar, muito menos ter filhos, então estávamos tendo uma discussão essencialmente hipotética ali. Se eu, que queria muito ter ambos marido e família e estava morta, ficava revoltada com aquela máxima de Oddie?

Só um pouquinho.

E, por causa da parte em que ela mencionara às vezes se ver “feliz” por eu estar morta e não poder ter filhos, alfinetei:

—Então... Nada de Joãozinho ou Mariazinha Weidmann num futuro próximo, suponho.

A expressão de Oddie se fechou como uma nuvem de tempestade.

Bom, ela pedira pela retaliação. Minha irmã sabia o quanto aquela parte de ser humana me fazia falta — envelhecer, ter filhos, uma família própria. Fazer troça disso doía numa fração apenas parcialmente conformada minha, mesmo que brincássemos e trocássemos farpas a respeito.

—Brincar com assuntos sérios não é exatamente divertido quando você é o alvo da brincadeira, não é, maninha?

Minha caçula mordeu o lábio, desviando os olhos ao perceber a intenção do meu golpe baixo.

—Tudo bem, mereci essa — ela suspirou, largando o fichário de lado para esfregar os olhos. — Desculpe, Ellie. Aquilo foi bem escroto.

—Foi — assenti.

—Me perdoa? Eu não quis insinuar que...

—Perdoo — assenti outra vez, com um sorriso espertinho no rosto. — Mas agora vai ter que falar sobre o bonitão. Ande, coloque para fora. Você disse que se abriria comigo se eu parasse de insistir em te colocar no manicômio.

—Em me colocar na terapia, Eloise.

—Semântica.

Odette revirou os olhos, como lhe era de praxe.

Era o que ainda me impedia de colocar minha irmã no manicômio, afinal — ela conseguia ser má e nem percebia, aquela língua bifurcada se desdobrando para prevalecer numa discussão sem pensar duas vezes, mas ela ainda percebia quando errava. Se importava com os sentimentos dos que lhe eram queridos e reconhecia a má atitude.

Bom, comigo ela ainda fazia isso, pelo menos, e era o bastante até agora. Eu não a culpava por completo, porque Oddie fora obrigada a ser tornar algo bem desprezível para conviver naquele meio caótico de demônios e entidades. A linha entre ela e Rhakfasa era tênue, e se mesclava com uma facilidade preocupante.

Entretanto, eu me lembrava de que a alma dela não estava completamente perdida, não como a minha, em momentos como aquele.

—Vamos — pressionei de leve. — Sei que isso está te incomodando.

Minha irmã soltou uma exclamação dolorosamente sonora de escárnio.

—Eu, incomodada? . Não sei de onde tirou isso.

Sorri, condescendente.

—Oddie, querida. Janis Joplin esgoelando os próprios pulmões enquanto você se enfurnava no quarto nos últimos dois dias foi informação o suficiente. Essa casa só ouve Janis Joplin quando você quer cometer um crime de ódio, e sutileza nunca foi seu forte.

Ela comprimiu os lábios, grunhindo derrotada.

—Tudo bem, mas incomodada não é a palavra. Irritada ou decepcionada, talvez. Eu pensei que havia alguma coisa lá, sabe? — admitiu, frustrada e se esforçando para não demonstrar a mágoa discreta que eu notava em seus olhos. — Ele foi divertido e galante e a primeira pessoa de quem eu realmente considerei me aproximar depois...

Depois de Phillipa.

Sim, aquele era um dos poucos tópicos que eu não fazia Odette destrinchar. Entender os próprios sentimentos era uma coisa, se torturar com lembranças vívidas era outra. Ela já sabia o que tinha acontecido e já sabia o que sentia a respeito, então não abordávamos essa parte do ano passado.

—Continue — incentivei, suavemente.

Oddie suspirou.

—Achei que ele estava interessado, também... Pelo menos foi o que o idiota deu a entender.

—Eu vi a maneira super discreta com a qual vocês estavam, hum, se esfregando naquela boate. Era interesse o bastante para mim.

Os lábios da minha irmã se curvaram num bico emburrado, e Bastman começou a ronronar alto com a carícia distraída que ela iniciou em suas orelhas de chacal.

—Também foi o que eu pensei, acredite.

—Ele não tentou ligar, mandar uma mensagem?

Nenhuma de nós tinha um instagram público, o que eu achava terminantemente desastroso e uma constante fonte de agonia, então não era fácil nos encontrar nas redes sociais.

—Ele não tem meu número — lembrou, desgostosa. — Eu é que tenho o dele.

—Ele não pediu a María, ou Raphael?

Odette havia faltado aos últimos três dias de aula, graças aos danos daquela besta tâmil, dos quais o corpo dela precisara se recuperar com bastante gelo e tylenol. Eu não sentia os efeitos da dor com tanta intensidade e me curava mais rápido quando sob posse do corpo da minha irmã, mas, assim que eu saía, os estragos lhe atingiam como um porrete. Humanos eram frágeis, assim como vahşee, quando lidavam com demônios de nível oito e abaixo. Oddie tinha feito Bastman ficar em casa na ocasião, ou ele se arriscaria demais tentando protegê-la durante a luta.

E, graças às escoriações, ela estava fazendo as atividades da faculdade — que mal haviam começado e ela já estava perdendo — em casa, com a ajuda das instruções de Flores e Mwangi, a dupla dinâmica, mas teria de voltar à ativa no dia seguinte e encarar o bonitão.

—Tentou — confessou, o biquinho se acentuando. — Mas eu não deixei que nenhum dos dois o desse a ele.

—Claro que não — bufei.

Não adiantava insistir; o rancor da minha caçula era como um carrapato enorme, cascudo e invocado — não era fácil se livrar do maldito. Ela se lembrava demais e perdoava de menos.

—Sabe, pelo menos ele foi atrás — reforcei, hesitante. — Você nem deu a ele a chance de explicar o sumiço.

Oddie fechou o fichário com um baque surdo, se levantando com um exalar irritadiço e fazendo Bastman grunhir, descontente. Eu me virei no sofá, ajustando a camisola curta rendada numa posição não muito comprometedora, e acompanhei sua expressão carrancuda enfiada em moletons quentinhos — e aquela distinção de trajes basicamente nos definia no dia-a-dia — enquanto ela marchava (mancando de leve, mas ainda ribombando os pés no assoalho) na direção da sinuca e enroscava as duas partes do seu taco profissional.

—Às vezes tudo não passou de um erro colossal e eu estou apenas recebendo um sinal divino de aviso — ergueu um ombro indiferente ao esfregar o giz azul com delicadeza na ponta de borracha.

—Você não acredita em sinais divinos — argumentei, seca.

—Deve ser por isso que estou tão enfiada na merda com demônios.

—Tudo bem, mas aquele garoto te deixaria enfiada em outra coisa.

Uma careta angustiada contorceu o rosto bonito de Odette.

—Acha que eu não sei disso? — arrumou as bolas coloridas com a testa agressivamente franzida. — Argh, ele é tão bonito que meu útero chega a cantar uma ópera.

—E isso é só o bônus! Nem foi por isso que se interessou por ele, foi? Já te vi pisar em caras mais gatos sem nem pensar duas vezes.

—Não, não foi — concordou, ainda mais infeliz. — Ele é engraçado e esperto e não correu das minhas respostas ácidas.

—Odette — abri os braços ostensivamente, enfática. — Admitamos, qualquer cara que não saia correndo com a quantidade de dominância que você exala já é para se manter.

Era verdade. Minha irmã era linda, mais inteligente do que grande parte da população daquele país e confiante o bastante para esmagar a dignidade de qualquer um com um mero revirar de olhos; coisa que ela fazia com uma frequência excruciante. A força dela não estava na aparência, mas na personalidade, e a maioria dos homens — inferno, a maioria das pessoas no geral — não sabia lidar com isso, com ela.

Phillipa costumava saber, María e Raphael sabiam, e o tal Galen, pelo visto, também. Oddie precisava daquele tipo de relação, precisava da fração ínfima de normalidade que ofereciam.

Eu estava com uma boa impressão sobre o garoto. Ele com certeza merecia uma chance de se explicar... E se não a aproveitasse, bom, então eu mesma talvez lhe fizesse uma visitinha, mais tarde.

—Não sei, Ellie — ela girou o relicário que eu lhe dera de presente no pescoço, o olhar distraído nas máquinas de arcade apitando sozinhas. — Era o meu aniversário e ele... Só me deixou plantada lá. Tudo bem que eu sumi por alguns minutos, mas... Se ele não consegue aguentar nem isso, quem dirá algo além?

Deus, era um carrapato bem grande. Talvez eu precisasse da ajuda de um dedetizador.

—Agora não está sendo justa. Você nem deu uma alternativa ao cara! — joguei as mãos para cima, agitada.

—Talvez ele não mereça uma — Odette se inclinou sobre a mesa de sinuca, posicionando o taco com uma precisão quase que letal, e a bola branca explodiu contra as coloridas num estrondo que encaçapou as bolas oito e quatorze de uma só colérica vez.

Torci para que ela não estivesse imaginando os testículos de Galen no lugar daquelas pobres esferas. A pancada na vida real com certeza o privaria de me dar sobrinhos.

Sim, eu provavelmente já estava planejando o tom do terno do garoto e os contatos do cerimonial do matrimônio deles, àquela altura. Se eu vivesse num dos romances de banca de Odette, com certeza seria uma daquelas mães casamenteiras escandalosas, e o faria com bastante empáfia.

—Dê só uma chance a ele — implorei, armando feições pidonas ao cruzar os braços sobre a borda do sofá e bater os cílios inocentemente. — Sabe, apenas uma de nós ainda pode transar, e me agradaria muito se você tirasse o atraso por nós duas.

Isso fez minha irmã conter um pequeno sorriso ao balançar a cabeça, o cotovelo se apoiando no taco maligno com familiaridade — Odette jogava sinuca como eu farejava liquidações da Jimmy Choo: feito uma profissional, e de um jeito furiosamente competitivo. Mania que ela tinha pegado de tio Arthur, para variar.

—Pelo menos vai estar se dando bem, caso o caráter do garoto também não seja tudo isso — ofereci, como quem não quer nada. — Ele tem cara de quem sabe o que faz

—Tem mesmo, não é? — ela suspirou, desejosa. — Argh. Tudo bem, acho... Acho que posso tentar escutá-lo, caso ele tente se desculpar, amanhã.

—Isso! — comemorei com uma risada e um gesto vitorioso tosco com os punhos. — Quem disse que fogo no rabo não junta casais, afinal?!

Odette ameaçou enfiar aquele taco no meu rabo, como a doce e adorável irmã caçula que era, e tudo que fiz foi saltitar até ela para estalar um beijo em sua bochecha.

—Sobrinhos! — tilintei, feliz e só um tiquinho zombeteira.

A parte fina do taco atingiu minha nuca, e Bastman bocejou preguiçosamente no sofá.

Tudo estava bem na pacata residência Ghester outra vez.

Mas é claro que esse tipo de merda nunca durava.

Não para nós.



[1] Canção do álbum Lover, da cantora norte-americana Taylor Swift. Tradução do inglês: Morte Por Mil Cortes. [2] “O Lado Ensolarado da Força”, em inglês.

Comments