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Belladonna - Amostra Antecipada
















Para a crepusculete que no momento está guinchando dentro de mim porque agora

pode dizer (com muitíssimo gosto) que escreveu livros sobre lobos e sobre vampiros.

E para todas que terminarão esse livro e passarão a considerar venenosa um elogio.



Conteúdo adulto.

Este livro não é recomendado para menores de 18 anos. Ele possui cenas gráficas de

sexo, violência, linguagem inapropriada e morte.

O livro faz óbvias referências abertas à mitologia romana, várias delas apresentando

veracidade histórica. Poucas palavras idiomáticas no livro são de origem fictícia. A grande

maioria foi apropriada do latim e do italiano (fosse na estruturação sonora, significante ou

gramatical), e esta autora não demonstra nada além de um grande apreço pelas culturas às

quais pertencem. *insira aqui aquele meme da lady gaga “como posso fazer disso uma

situação para afirmar que sou italiana”*













Prólogo: A Origem da Romália


Há mais séculos do que se importam em contar, o monarca de um poderoso reino teve

três filhos.

As histórias sussurravam que ele havia nascido com uma condição única — uma

maldição, diziam — que obrigava o rei e seus descendentes a beberem sangue para manterem

força e vitalidade, a se manterem longe da luz do dia e dos raios solares nocivos à pele albina

sensível. Ladranimi, murmuravam amedrontados nas villas ao barricarem as portas à noite,

quando a família real saía para caçar. Ladrões de almas.

Vampiros.

Dentre os filhos do velho monarca, o mais velho era o mais forte, a do meio era a

mais astuta, e o mais novo era o mais justo.

Apesar de unidos na infância, os três acabaram se separando durante a maturidade,

pois perceberam que apenas um deles herdaria o trono. Depois de uma tentativa brutal de

golpe de estado e a iminência de uma guerra civil provocada pela ganância por poder dos dois

irmãos mais velhos, o reino se dividiu em três polos de controle.

A Romália cresceu poderosa, mas ainda dividida e limitada, as três províncias

eternamente fadadas à paz instável ou ao conflito temporário, ameaçada pela desunião

somada à fome sanguinária de território dos reinos vizinhos.

Até ela.

A rainha com a força, a astúcia e o senso de justiça, diziam as histórias. Ungida por

Neatha, mãe dos vitrais, com veneno nas veias e sangue nas mãos, poderosa o bastante para

unir as três províncias sob um longo e próspero reinado. Tantos nomes quanto lendas a seu

respeito.

Ladra de almas. Venenosa. Assassina.

Salvadora. Justiceira. Heroína.

Bastarda. Plebeia. Soberana.

Belladonna.


I. Amaldiçoada


Minha mãe disse que me nomeou Belladonna porque desde o momento em que abri

os olhos, eles eram muito, muito pretos.

Praticamente sem íris, apenas pupilas enormes num vazio imenso de nanquim.

A criada que cuidou de mim até meus oito anos de idade, por outro lado, disse que

meu nome era esse porque minha mãe tentou se envenenar com a baga da planta de mesmo

nome para interromper a gestação. Eu a estava consumindo, contou a criada, na primeira e

única vez que tive coragem de perguntar a respeito. Sugava tanto da sua energia e vitalidade

que ela mais parecia um cadáver em vez de uma mulher que estava gerando uma vida.

Ela tentara se livrar de mim, esclareceu, com palavras duras e honestas até demais

para uma menina, porque eu era uma aberração, a cria de um homem amaldiçoado.

Estava certa, afinal, mas a tática não funcionou. Eu nasci saudável e barulhenta, sua

própria amostra de veneno para amamentar, e ela se viciou no efeito alucinógeno das bagas

das plantas. Não era a história de ninar mais bonita para atrair bons sonhos, mas diferente de

outras, era real: uma criança amaldiçoada de uma mãe delirante e um pai ausente.

Mas é claro, o que mais se esperaria de um rei?

Ele não podia nos dar atenção, tinha cidades para governar. Não podia prover do seu

tempo, tinha guerras para vencer. Não podia fornecer mais abrigo depois que cresci, porque a

validade da minha mãe como amante já tinha expirado, e as histórias de ninar se foram junto

da criada que me criou.

Ela podia ter começado o vício em bagas de beladona por causa da gravidez, mas

continuou mantendo-o porque era mais fácil alucinar de forma constante do que enfrentar a

realidade. Ela era uma estrangeira em um país preconceituoso com estrangeiros, era uma

mulher abandonada sem dinheiro ou futuro criando uma filha amaldiçoada sozinha. Era

apenas mais uma dentre milhares, dolorosamente comum e miseravelmente amarga.

Quando ela me xingava e tentava me bater, eu tentava manter isso em mente. Quando

me dizia que preferia ter morrido a engravidado de uma aberração, eu realmente me

esforçava para lembrar que ela não passava de uma pessoa muito triste e desesperada. Minha

progenitora sofrera muito mesmo na vida, e conseguira um pouco de luxo como amante da

realeza apenas para perder todo aquele privilégio por causa de uma gestação indesejada.

Mas conter a raiva e a mágoa também era muito difícil nesses momentos.

Não havia maldição nenhuma em mim, na minha humilde opinião. Havia poder, havia

força, rapidez e dons inestimáveis. Havia a beleza extraordinária que eu herdara da minha

mãe, a mesma que atraíra a atenção de um rei em primeiro lugar, com nossos longos cabelos

pretos feito penas de corvo e pele alva como o marfim dos templos e panteões.

E eu podia apostar que era o que o lorde balbuciante à minha frente achava também,

pelo modo como ele piscava ao absorver minha aparência, os lábios entreabertos e o olhar um

pouco vidrado, a careca cintilando com o suor.

— D-de onde... — pigarreou, tentando se concentrar. — De onde disse que era

mesmo, senhorita Trevoci?

Sorri, enigmática, ao bebericar vinho da taça em minhas mãos e me recostar na

cadeira estofada.

— Uma villa charmosa próxima a Santorini. Pequena, mas adorável.


Meu sobrenome não era Trevoci, e eu não vinha de uma villa próxima a Santorini,

mas eram informações vagas o suficiente para que ninguém se importasse em checar.

Com as joias em meus pulsos, dedos e pescoço, com a qualidade do tecido do meu

vestido e os cosméticos no meu rosto, a possibilidade de eu estar mentindo não passava pela

cabeça de nenhum deles.

— Ah, Santorini — uma dama com o pó de arroz já derretendo no rosto sorriu à

direita do homem que perguntara, ansiosa por atenção e por ser incluída na conversa. —

Nunca visitei as vinícolas da província, mas estou certa de que são magníficas. A senhorita

deve entender de vinhos, imagino.

— Faço o meu melhor. — Ergui a taça, sorrindo na direção do anfitrião cujo nome me

era irrelevante. — Esse, por exemplo, é divino.

Não era. Ácido demais para o meu gosto, a textura parecia barro na língua, e o tanino

da uva era tão agressivo que quase estava me fazendo chorar.

— Sofia entende de muitos assuntos. — Augustus di Satto sorriu ao meu lado, os

olhos esverdeados reluzindo na minha direção, o cabelo castanho batendo nos ombros em

charmoso desalinho. — Viajou para todo tipo de lugar, fala cinco idiomas, canta e toca como

poucos, entende de política e filosofia, dança feito um anjo. Ela é uma joia rara.

Eu armei minha expressão mais devota para ele, as bochechas coradas apenas o

bastante para me fazer parecer educadamente constrangida com o afeto escancarado.

Não tinha mais muito tempo com Augustus. Ele estava a meros dias de me propor

matrimônio, e eu teria de me livrar dele antes disso. Pensava que Sofia Trevoci era uma

jovem abastada e de boa família, visitando a cidade para passar o verão com uma tia distante,

e também pensava que estava apaixonado por ela. Achava que era correspondido.

Porém, exceto pelo dinheiro, status e prazer físico que me fornecia, di Satto era tão

substancial para mim quanto um buquê de flores.

Bonito e agradável no início, mas com uma vida útil curta.

— Ela com certeza lhe faz bem — elogiou a dama que comentara sobre Santorini. —

Parece muito melhor desde sua indisposição semana passada.

Meu acompanhante meneou a cabeça, polido, discretamente ajustando a gola do

casaco.

— É muita gentileza.

— Eu disse a ele para não passar tanto tempo cavalgando no sol sem ter se alimentado

direito — repreendi, curvando os lábios de modo carinhoso em desaprovação. — Mas parece

que sou uma joia rara o bastante apenas para ser vista, não escutada.

Ele riu ao tomar minha mão e beijar os nós dos meus dedos, balançando a cabeça, e

outros na mesa o acompanharam.

— Farei questão de obedecer da próxima vez, minha querida.

Uma senhora com safiras do tamanho de uvas gordas ao redor do pescoço sorriu

amavelmente na nossa direção.

— Vocês dois formam um lindo casal. Um colírio para os olhos nesses tempos

turbulentos.

Augustus inflou o peito discretamente, agradecendo com outro meneio de cabeça, e

fingi me embaraçar e baixar os olhos. O arranjo era útil para nós dois. Eu aproveitava sua

condição financeira e o que ela me proporcionava e ele se aproveitava da minha aparência,

me exibindo como sua prometida.

A noite foi tediosamente ostentosa e confortável após aquilo, como de costume.

Era bom que eu precisasse deixar aquele lugar logo, porque as pessoas estavam

começando a memorizar meu nome e me reconhecer de rosto. Fora isso, também já não tinha


mais graça. Mesmos bailes, mesma comida, mesma bebida e mesmos nobres. Era fácil me

deixar levar e ficar mais do que seria recomendável, mas eu não me dava ao luxo de fazer

isso mais.

Então me certifiquei de espalhar um boato de que titia retornaria em breve e eu

precisaria viajar para o sul com ela para ver alguns primos, os Conterranne; uma família rica

muito conhecida na Romália pela plantação e comércio de trigo. Todos se mostraram

devidamente compreensivos — “ah, visitar a família é muito importante” ou “sempre quis

visitar as terras Conterranne”.

E é claro “mas e o senhor di Satto?” como se o pobre do homem precisasse de mim

para afofar seus travesseiros ou limpar sua bunda. Era quando eu precisava forçar uma

expressão desolada, dizer que eram só alguns dias e bom, pelo menos poderíamos organizar

os pormenores do evento enquanto estávamos separados. Eles se distraíam fácil após isso,

porque começavam a tentar insinuar de todas as maneiras que adorariam ser convidados para

o casamento e que nos desejavam muita felicidade.

Minha paciência para os sorrisos falsos e expressões amáveis se esgotou em certo

ponto e declarei cansaço, chamando Augustus e uma dama de companhia para irmos. A

carruagem seguiu tranquila até a enorme propriedade dos di Satto, uma das maiores, mas não

a maior, das quais eu já tinha ficado. As colunas e cornijas ornamentadas entre o friso

entalhado davam um ar solene e religioso à estrutura, e eu sabia que era proposital. Os pais de

Augustus eram grandes devotos aos deuses, mas principalmente à divindade que “abençoara”

sua linhagem, Temar, o deus da guerra. O patriarca di Satto tinha lutado nas fronteiras quando

jovem, mas o filho não decidira ingressar a legião, muito para o seu desgosto.

Eu pouco me importava com as inclinações religiosas dos meus acompanhantes de

estimação, mas sempre tentava me manter longe dos fiéis enlouquecidos, e Vannalus di Satto,

pai de Augustus, era um desses.

Ele nos recebeu na entrada assim que descemos da condução, o bigode grisalho

torcido na minha direção, a túnica amarrotada com a provável andança inquieta pela casa. Ele

nem podia me culpar naquela noite, havíamos retornado bem cedo.

— Pai — Augustus franziu a testa para o modo como o progenitor me encarava. —, o

senhor já não devia estar na cama?

— Tenho assuntos pendentes com você — grunhiu, sem nem voltar o olhar para o

filho.

Eu bati os cílios, inocente, e suas pálpebras caídas se semicerraram. O velho

insuportável me odiava. Teria me expulsado dali no primeiro dia se a esposa não tivesse se

apaixonado por mim imediatamente, insistindo que eu ficasse hospedada na casa di Satto

enquanto minha tia viajava.

Augustus suspirou, beijando os nós dos meus dedos ao se despedir e seguir o pai

escadaria acima.

O mármore creme estalava sob minhas sandálias enquanto eu atravessava a sala

comunal, o segundo andar e chegava aos meus aposentos. Sorri com doçura para a serva que

me acompanhara até a porta.

— Estou terrivelmente cansada, acho que vou logo para a cama.

Ela assentiu, silenciosa e discreta como sempre, e se afastou pelo corredor suntuoso.

Esperei até não ouvir mais nada durante um ou dois minutos, e voltei para o corredor

sem emitir som algum depois de acender uma vela para dar a ilusão de que ainda estava no

quarto. Com anos de prática, eu basicamente me mesclava às sombras na mais completa

quietude. E se alguém me notasse ou escutasse... Não me custava nada silenciar esses

infelizes, também.

Quando Augustus voltou para o próprio quarto, eu já estava em sua cama.


Ele sorriu ao me ver, e me ergui preguiçosa dos lençóis macios, a expressão frustrada

com a qual ele entrara se dissolvendo quando me aproximei.

— Ele está te pressionando de novo? — indaguei, assumindo um semblante

preocupado.

Por mais que me odiasse, Vanallus era, depois de Augustus, aquele que mais

fervorosamente desejava nosso matrimônio. Ele tinha certeza de que eu era uma golpista, por

mais que eu já tivesse dado inúmeras provas de ser quem alegava — todas falsas, é claro, mas

convincentes. Vanallus queria, além de netos catarrentos e enérgicos para mimar o quanto

antes, um casamento moderno, no qual eu tinha direito aos meus bens sem ser subjugada pela

dominação da família do meu marido.

É claro que, com isso, tudo que aquele velho maldito queria era não precisar me

sustentar — e, para o azar do desgraçado, meus contraceptivos estavam meticulosamente em

dia.

Augustus ficava revoltado e eu achava adorável, mas mesmo meu suposto futuro

noivo já estava ficando impaciente. Suas mãos envolveram minha cintura, ávidas e

apaixonadas.

— Ele só está sendo paranoico, mas é doloroso esperar. — Enterrou o nariz no meu

pescoço, inspirando fundo. — Quero que seja minha logo, por inteiro.

Revirei os olhos, minhas unhas se enterrando com uma voracidade fingida em seus

braços.

— Em breve, meu amor — entoei, a voz melódica. — Minha tia chegará de Venusa

em menos de uma semana.

Era o tempo que eu tinha para aproveitar o quanto conseguisse e organizar a próxima

caçada. A próxima cidade, a próxima família rica, o próximo solteiro suscetível. Ele achava

que pediria minha mão à minha matrona em menos de uma semana, mas a verdade era que eu

estaria bem longe a esse ponto da coisa, levando algumas joias demasiadamente acessíveis

que eu sabia que a matriarca di Satto mantinha em alguns dos quartos de hóspedes.

— Às vezes parece um sonho. — Augustus ergueu a cabeça para me encarar, os olhos

vidrados, e meu sorriso suave foi genuíno daquela vez. — Que esteja comigo. Que seja tão

linda e que eu tenha tido tanta sorte. Você é absolutamente perfeita.

Eu o empurrei devagar até a cama, os movimentos lentos e ainda predatórios, a mão

livre desatando os nós do cordão na minha cintura, jogando minha palla de lado, aquela droga

de lenço enorme e calorento que eu era obrigada a usar cobrindo o corpo a noite inteira para

parecer recatada.

Ah, se ao menos me vissem agora.

— Perfeita? — provoquei, as sobrancelhas erguidas em deleite.

— Divina — Augustos arquejou baixo, os olhos em meus lábios. O que espreitava por

trás deles. — Esplêndida.

— Hmm.

Ele caiu de costas na cama, as pupilas dilatadas e a respiração rasa, acelerada. O

manto caiu aos meus pés e eu subi em seu colo, as coxas o prendendo ao colchão. Levei suas

mãos até os fechos das alças em minhas costas, e Augustus os desabotoou mais do que feliz.

O tecido se acumulou nos meus quadris e a mira dele se fixou nos meus seios marcados por

baixo da fáscia fina.

Eu tirei sua túnica, as unhas deslizando pelo peitoral definido, e o senti endurecer

embaixo de mim.

Meus lábios roçaram nos seus, apenas o bastante para incitá-lo, as mãos largas

descendo pelos meus quadris. Me movi sobre Augustus devagar, o beijo se tornando mais


faminto a cada gesto lânguido, os dedos desatando a calça e libertando o membro rijo para

guiá-lo para o meio das minhas pernas.

Para tomá-lo dentro de mim, engolindo seus gemidos abafados com a língua e os

dentes a cada vez que eu subia e descia sobre ele.

— A lua sangra esta noite? — ofegou, as íris ébrias com a luxúria e com a beladona

que ele provara dos meus lábios.

Eu sorri, cavalgando-o num ritmo delicioso.

— Alta e vermelha no céu, querido.

Augustus era um amante dedicado. Ele sempre tentava me fornecer prazer antes que

atingisse o próprio, mesmo que nem sempre tivesse sucesso, e tinha caído nas minhas graças

por isso. Talvez sentisse sua falta. Talvez eu tivesse me apegado um pouco a ele, mesmo que

não fosse o bastante para me fazer ficar.

Com certeza sentiria falta do modo como sua extensão me preenchia, o modo como

seu toque sabia dedilhar meu cerne a ponto de me faltar o ar. Nem todos os acompanhantes de

estimação que eu caçava eram bons em me satisfazer.

Nada do que faziam era tão bom quanto a parte final, no entanto.

Quando o suor encharcava nossas testas e os sons dele já não se mantinham baixos.