Capítulo Bônus - Paradoxem

NOTA DA AUTORA



Esse capítulo não é sobre Jonathan e Evelina – é sobre Nate e Evie.

Não, não vou pagar a terapia de ninguém (mal tô pagando a minha, galera).

Ele se passa um mês após o verdadeiro Banho de Sangue do Beco, o da linha premeditada original de eventos, sem bioandroides, versões do futuro ou Savór interferindo. Nele Evie se uniu ativamente à Insurreição após se revoltar com o massacre, e Nate acaba descobrindo a respeito de modo bem inconveniente. Nessa versão ela ainda não sabe que seu Capitão de Araque também é um simpatizante rebelde e ele também não contou a ninguém.


Aviso de cenas gráficas (aproveitem).






Ele jogou uma uva nela.

Evelina encarou a fruta minúscula com um fuzilar que poderia ter atravessado chumbo depois da coisa quicar em sua testa e cair na grama, logo antes de girar aquela expressão mortífera na direção dele.

Jonathan conteve a risada com muito esforço.

— Estou entediado, doçura.

Ela estreitou os olhos bicolores com a mais pura incredulidade contorcendo seu lindo e irritado rosto. O tablet holográfico em seu colo e os esboços complicados sendo exibidos na tela tinham dito a ele que sua concentrada protegida provavelmente não queria ser incomodada, mas Jonathan tinha ignorado essa parte do contexto com bastante sucesso.

— E isso é problema de quem...?

Ele jogou outra uva, mas Evelina estava preparada daquela vez. Ela agarrou o tablet em suas mãos como escudo e rebateu o arremesso como uma profissional, fazendo o pequeno projétil arroxeado voar de volta no nariz de Jonathan com uma precisão aterradora.

Um sorriso vitorioso esticou os lábios dela, as íris reluzindo com o humor, e ele considerou o dia ganho apenas por aquela pequena interação.

Era a quinta vez que o Capitão conseguia atraí-la para fora de casa na semana. Vinha enchendo seu saco dizendo que ela precisava de sol, ar fresco, vitamina D e essas merdas, mesmo que os dias nem sempre fossem ensolarados no Potentado, mas a verdade era que Evelina estava preocupando-o para caralho nas últimas semanas.

Em torno de um mês antes, a garota gênio tinha se fechado de súbito numa casca e permanecido lá por dias. Ficando trancada no quarto o tempo todo, saindo de vez em nunca e, se por um milagre saísse, era com uma expressão dolorosamente vazia e rancorosa no rosto.

Começara no dia de uma batida violenta no Beco da Graxa, quando o Sistema emboscou alguns insurgentes num ataque surpresa e várias pessoas morreram no fogo cruzado. Ele não tinha certeza, mas a impressão era que Evelina talvez fosse amiga de alguns dos civis que não haviam sobrevivido ao conflito; ela conhecia aquelas bandas como ninguém, afinal. Era uma frequentadora assídua do Beco – ou pelo menos costumava ser, antes de Jonathan ser encarregado da sua custódia.

Aquela batida – massacre – a marcara de algum modo, e seu jeito de lidar com o luto fora se isolando.

Coisa que Jonathan tinha respeitado a princípio, é claro, mas depois... Ele não se conformara com a falta de vida no rosto dela. No modo como ela nem reagia mais às suas piadas, ou corava furiosa e adoravelmente diante dos seus flertes descarados, e se sentiu obrigado a intervir antes que a coisa piorasse de forma irrevogável.

No primeiro dia em que ele a abordou e convidou para assistir um filme, Evelina fechou a porta do quarto em sua cara sem remorso algum.

No segundo, ela o mandou fazer coisas bem criativas com sua sugestão de dar um mergulho em uma das piscinas da propriedade.

No terceiro, ele apenas roubou seu tablet e a esperou pacientemente nos jardins, até que Evelina aparecesse bufando e fumegando com cólera faiscando em seus olhos para buscar a coisa.

Bom. Raiva era melhor do que a total falta de emoção que Jonathan vinha presenciando nela.

Ele repetiu o processo com outros pertences dela nos próximos dias até a garota gênio ameaçar contar para o pai o que ele vinha fazendo, e a única coisa que Ronan Marchald fez diante disso foi incentivá-lo. Jonathan parecia ser o único que conseguia arrancar algum tipo de reação dela naqueles dias, e os pais estavam consternados com o estado da filha.

Então ele continuou.

Convidando-a para passeios de pod, lanches nos jardins, sessões de filme que ela quase sempre rejeitava, mas o fato de que estava tentando pareceu amolecer Evelina, fazê-la recuperar um pouco do temperamento forte característico.

Na última semana, ela estava consideravelmente melhor. Trocava mais do que dez palavras por dia com Jonathan e os pais, saía com mais frequência do quarto, continha o sorriso com menos esforço quando ele fazia alguma piada boba. Seu coração acelerava feito um motor velho e engasgado quando via o brilho habitual retornando aos olhos coloridos dela, e toda pequena interação leviana valia a pena.

Como a daquele dia.

— Belo contra-ataque — o Capitão limpou um pouco do sumo da uva que tinha espirrado no seu nariz com o dorso da mão, bem-humorado.

— Você mereceu — Evelina mostrou a língua.

— Por mais impressionante que tenha sido, ainda estou entediado.

Ela jogou os braços para cima, revirando os olhos ao deixar o tablet de lado.

— Por favor, me ilumine e diga o que é que eu tenho a ver com isso.

Ele se aprumou na cadeira acolchoada, a expressão se enchendo de uma empolgação travessa.

— Vamos fazer algo divertido.

— Temos conceitos de diversão muito diferentes — uma careta ligeiramente temerosa acompanhou a resposta de Evelina. — Da última vez que chequei, seu trabalho era me manter longe de más influências.

— Eu mantenho!

Era verdade. Fora o tempo em que ela ficava enfurnada no quarto, não havia um minuto no qual o Capitão a deixava sair desacompanhada ou desprotegida. Ele levava a segurança dela a sério, não só porque era seu trabalho, mas porque Evelina tinha passado a significar mais do que conseguia medir em palavras ao longo dos últimos dois meses. Aquela garota geniosa, brilhante e enlouquecedora havia se tornado uma amiga.

Mais que isso, ele às vezes ousava considerar.

— Não há como me manter longe de más influências se você for a má influência — Evelina rebateu.

Ou não.

Jonathan levou a mão ao peito, fingindo mágoa ao desviar o olhar para a mesa de comida com um empenho teatral.

— Ai.

Em sua defesa, o lanche estava mesmo bem chato. Eles já tinham comido e conversado um pouco sobre o almoço de caridade do dia anterior, ao qual o Ministro a obrigara a ir (por consequência, o obrigara a ir também). Depois da sobremesa, o Capitão tinha fechado os olhos e se recostado numa espreguiçadeira enquanto Evelina se encolhia num divã a poucos metros de distância e se concentrava em alguns projetos no tablet.

E a prova de que os esforços de Jonathan vinham dando resultado era o fato de que ela preferira ficar ali, na companhia dele, não voltar para o quarto.

— O que acha daquele mergulho?

Ela o encarou como se ele tivesse perdido alguns parafusos.

— Está nublado e fazendo 20° graus.

— As piscinas são aquecidas!

— Nem morta.

— Qual é, doçura — ele arqueou as sobrancelhas, petulante. — Está com medo de quê?

Evelina arqueou as sobrancelhas de volta com o desafio no semblante dele.

— Isso não vai funcionar comigo, Capitão de Araque.

Bom, isso era. Ela tinha razão, o nível de maturidade da garota gênio normalmente batia seu orgulho com folga.

— Então vamos aumentar essa aposta — Jonathan esfregou as mãos, animado. — Se você aceitar, eu paro de roubar suas coisas e de insistir nesse assunto. Não seria ótimo se eu não enchesse mais o seu saco para ir comigo à porra da piscina enorme que você tem em casa e não usa? Pense na doce paz e tranquilidade que traria ao seus dias.

Isso pareceu fazê-la hesitar por um instante, e ele marcou um X sobre o coração, como se juramentando a promessa a ela.

— Vamos, Evelina — ele quis falar sério, quando depois de longos segundos ela ainda parecia muito além de relutante. — Vou manter minhas mãos longe e você vai poder me secar seminu enquanto eu não estiver prestando atenção, prometo.

Ela revirou os olhos pela terceira vez em dois minutos, mas corou muito de leve.

— Está querendo amarelar porque não tem um biquíni?

— Eu tenho um biquíni — mordeu o lábio, a testa se franzindo de um jeito fofo. — Eu só não uso ele há... um tempinho.

Evelina queria dizer que a peça provavelmente estava pequena para ela.

Jonathan se controlou muito para não grunhir baixo, tentando bloquear a imagem da sua mente sem muito sucesso. A ansiedade começou a se acumular involuntariamente na base do seu âmago com uma queimação crescente e, não pela primeira vez, se lembrou de que a lista de motivos para não permitir que essas sensações ganhassem significado já era quilométrica.

Ele sabia que não podia cruzar a linha física com Evelina porque já tinha cruzado a emocional. Jonathan gostava muito dela para se permitir dormir com a garota, pois se conhecia o bastante para saber que acabaria se apegando – e, no fundo, não sabia se seria correspondido, o que não fazia exatamente maravilhas para o seu ego. Além disso, ele estava ali a serviço, e pior, não ficaria para sempre. Seu dever era para com a Nação-Mãe, e ele precisaria ir onde o Sistema ordenasse. Em algum ponto o supremo tribunal o designaria para outra missão e Evelina Marchald não se tornaria nada além de uma lembrança agridoce de um passado distante.

Mas, porque era um canalha e nunca tinha negado esse fato, perguntou como quem não quer nada:

— De que cor é?

Ela piscou para ele.

— Que diferença isso faz?

— Mulher, responder uma pergunta direta que seja por acaso vai arrancar um pedaço seu?

Evelina revirou os olhos.

Pela quarta vez.

— É branco.

Assentiu, reunindo o máximo de austeridade que conseguiu ao indagar:

— É meia taça? Fio dental? Ao menos tem bojo?

Uma almofada – antes repousando tranquilamente ao lado dela no divã – o atingiu na cabeça, e uma risada de deleite escapou do Capitão.