Cena Deletada - Safira de Prata

Acho que preciso inserir um pouco de background antes: Safira e Howl eram personagens inteiramente diferentes e nada desenvolvidos. Nessa versão anterior, Safira tinha acabado de se transformar e estava fugindo de Eiko, mas dessa vez ele supostamente tinha um "aval", porque Lother (que costumava se chamar Lothe) a tinha prometido em casamento a ele (sem que a garota soubesse). Howl já havia lhe escolhido como par e ela não sabia, e ele também não tinha admitido. Nye e Demina também eram diferentes das personagens que conhecemos hoje, e a história da primeira Lunar também é contada de modo distinto, como verão.


Me adianto e me desculpo pela gramática xula, as crases no lugar errado, as sentenças pobremente montadas. Mas tudo que sinto quanto olho para elas é orgulho, porque consigo notar o quanto cresci e melhorei na escrita. Espero que percebam também!


E de todo modo, também espero que gostem.





Eiko estava praticamente em seus calcanhares.

Mesmo com a perna ferida, ele era incrivelmente rápido. Safira constantemente tropeçava em raízes e pedras que a atrasavam. Ela não tinha tanta desenvoltura para correr como loba, e isso custara muito. Agora o macho estava rosnando atrás dela, parecendo bem mais furioso do que antes.

Safira se obrigou a acelerar e conseguiu ver as luzes das cabanas perto. Suas patas quase falharam de alívio. Uma voz gritou em sua mente:

Pare, garota estúpida! Pare!

Era Eiko. Era assim que licantropos da mesma alcateia se comunicavam na forma de lobo. Uma parte dela se desesperou por achar que teria de obedecê-lo, mas as ondas de dominância não vieram. Ela continuou correndo sem incômodo algum por resistir às ordens dele.

Porém o lobo negro saltou à frente dela num impulso repentino, e Safira escorregou para desviar-se dele. A loba bateu na parede de uma cabana com força, ganindo. Estava encurralada. A fêmea abaixou-se e mostrou os dentes num desafio claro.

Eiko parecia ainda mais furioso, e seu lobo olhava de um lado para o outro sem parar. Como se temendo alguma testemunha. Ele voltou-se para ela.

Você estará morta antes que saibam o que é.

E atacou.

Os dois rolaram pela terra, mordendo e arranhando de uma maneira brutal e selvagem. Safira cravou os dentes no lombo do macho e ele rugiu, atirando as garras contra o pescoço dela. Os cortes sangraram e a loba ganiu baixinho, a dor desacelerando seus ataques. Ela lutara e dera tudo que tinha. Morreria, mas dera boas cicatrizes à Eiko. Isso a consolou um pouco.

Ele fechou a bocarra em sua garganta e a loba cerrou os olhos.

Eiko foi arrancado para longe dela com brusquidão. Os dentes rasgaram sua pele, mas isso ainda era melhor do que ter a cabeça mordida para fora do corpo. Safira se ergueu com dificuldade, mancando de uma pata, para encontrar um enorme lobo escuro com manchas brancas rosnando à sua frente, protegendo-a de Eiko. Ela reconheceria-o em qualquer lugar.

Howl?

O lobo se retesou, olhando para ela com assombro nos olhos dourados.

Safira? a voz incrédula do rapaz ecoou na mente dela.

Saia do meu caminho, sibilou Eiko, arreganhando os dentes.

Howl voltou a atenção para ele, rugindo.

Você atacou uma Lunar. Será expulso dessa alcateia.

Ela era minha para tomar!

O lobo negro com manchas brancas avançou, em cólera. Seu primeiro golpe manchou a terra de sangue quando a barriga do adversário se abriu num rasgo. Eiko revidou com uma mordida no flanco, que desacelerou o ataque de Howl, mas não o parou. O futuro alfa atirou o licantropo longe, e já partia para o próxima investida, quando o próprio alfa alcançou a luta.

Basta! — Lothe manteve o tom baixo, mas escorrendo comando. Os dois não tiveram escolha a não ser obedecer. — O que houve aqui?

Howl arfava.

Pai, esse bastardo atacou Safira.

—Safira? — a surpresa reluziu nos olhos do líder da matilha por alguns instantes. — Safira era a Lunar em perigo?

Sem a adrenalina correndo em suas veias e o perigo iminente, a loba ferida sentiu seu corpo se retesar e mudar. Ela ganiu baixinho quando o processo de transformação se reverteu, deixando uma adolescente maltrapilha, nua e sangrando no lugar. A menina tremeu de frio e se cobriu com as mãos, vermelha de vergonha.

Howl já estava ao seu lado, também na forma humana, agarrando um manto sobre uma tenda e envolvendo Safira com ele delicadamente. Ela corou ainda mais, se obrigando a desviar o olhar do corpo do rapaz, também descoberto como o dela.

—Obrigada.

Ele assentiu, encarando Safira de um modo peculiar. Então se voltou para Eiko, já transformado como eles. Sua irmã estava ao seu lado, segurando algumas roupas e olhando para a jovem no chão com algo como... Medo? Ela nem tinha visto Mykaela chegando. Mas pelo visto eles agora tinham uma pequena plateia.

Howl chegara até ela a tempo para ajudar porque assumira a forma de lobo, mas só agora os outros alcançaram a cena. Todos estavam encarando-a com assombro. Vaska correu imediatamente para Safira, o rosto bonito preenchido de espanto. Will, logo atrás dela, arfou ao vê-la.

—Safira — gaguejou, bestificado. — Seu cabelo. Seus olhos.

—O quê? — ela segurou a manta no lugar com uma mão e levou a outra à cabeça, procurando o que o amigo via de errado nela. Seus dedos agarraram uma mecha e ela arquejou. —Que diabos..?

Estava branca.

Todo o cabelo dela estava branco.

—Você está morto — murmurou Howl, num tom mortalmente baixo, e Eiko trincou a mandíbula. O rapaz já tinha vestido uma calça que Yan lhe trouxera, e este último olhava para o irmão de Mykaela com uma expressão quase igualmente assassina.

—Ninguém está morto. Ainda. — Lothe lançou um olhar enviesado a Eiko. — Vocês três, comigo. Agora.

Vaska ajudou Safira a se levantar e seu pescoço latejou, sangrando. Ela sibilou.

—Pai, ela precisa de cuidados — o próprio Howl tinha hematomas pelo peito e um corte na sobrancelha, mas não parecia sentir dor alguma.

—Yan, leve Demina até nós. Explique a situação.

O beta assentiu e correu para longe. Will colocou seu casaco em volta de Safira, que sorriu agradecida.

—Vou levar roupas para você — sussurrou Vaska, com um olhar preocupado. — Boa sorte.

Safira engoliu em seco, mas seguiu o alfa com relutância. Ela se sentia estranhamente leve e não conseguia identificar o porquê. Howl se postou protetoramente atrás de Safira, tão perto que conseguia sentir o calor dele emanando até ela. O rapaz olhava ameaçadoramente para Eiko, que seguia à frente sem demonstrar nada no rosto. Howl parecia capaz de pular no licantropo se ele sequer respirasse errado.

—O que está acontecendo? — sussurrou Safira, nervosa. — Por que meu cabelo está branco? Isso sai?

Ele voltou os olhos para ela, e sua voz estava surpreendentemente branda.

—Demina vai explicar tudo a você, eu prometo.

Ela respirou fundo, os lábios tremendo. Olhou para Eiko e esperou o medo, mas só sentiu raiva. Sua loba estava ensandecida, querendo rasgar o caminho para fora dela e fazê-lo em pedaços. Ela estava em cólera, e a jovem notou que ela nunca fora tão presente. Sua forma animal sempre fora contida, inferior. Agora ela ocupava algo como uma parte enorme de Safira, rosnando e se mostrando como nunca. Forte, poderosa. A garota gostou daquilo. Era como se devesse ser assim desde o início. Safira não era submissa, ela era uma guerreira.

Eles chegaram à cabana e entraram em silêncio. A garota passou pela janela da varanda e tentou ver seu reflexo. Quando íris prateadas a encararam de volta, a licantropa soltou um arquejo bestificado.

—O quê...

Howl agarrou sua mão, e arrepios subiram pelo braço dela.

—Você vai entender em breve — jurou, sério.

Safira assentiu fracamente, boquiaberta demais para responder.

A pessoa que lhe encarara de volta no reflexo não era nada como ela esperava. Aquela garota parecia... Parecia uma licantropa pura. Uma loba atraente e exótica, com cabelos brancos de luar e olhos de prata intensos. Nada como a aparência sem graça de antes, com olhos e mechas castanhas comuns. Ela estava assustada, mas uma pequena parte dela gostou do que viu.

Gostou de verdade.

—Falem — Lother se recostou contra a mesa de carvalho polida, a face austera. — Você primeiro, garota. O que houve essa noite?

Eiko focou os olhos nela, a ameaça clara como água.

Se disser algo, vai pagar caro.

Safira devolveu o olhar na mesma medida.

—Eiko tentou me matar.

Howl avançou.

Ele conseguiu acertar dois socos potentes antes que Lother o segurasse, prendendo os braços do filho ensandecido.

—Eu vou matá-lo!

Eiko cuspiu sangue, abrindo um sorriso debochado e manchado de vermelho.

—Quieto, garoto — o alfa afastou o filho do outro macho, se colocando entre eles. — Eu dei Safira a ele.

—Como disse?! — arfou o rapaz.

O sorriso do bastardo se expandiu.

—Você fez o quê? — rosnou Safira.

Lother olhou para ela, ainda incerto.

—Eu não concordei com violação nenhuma — explicou-se. — Ele pediu para tê-la como companheira, e eu autorizei.

—Como pôde? — ela sibilou, horrorizada. — Eu não sou uma propriedade para que você me dê para os outros, principalmente para um monstro como esse!

Eiko bufou, e a única coisa que parecia impedir Howl de matá-lo bem ali era o choque.

—Pensei que seria vantajoso para você — o alfa justificou. — Era uma loba submissa e subdesenvolvida, e Eiko é um macho dominante que te queria. Aya disse que você aceitaria, já que sairia ganhando.

Aya.

É claro que ela tinha um dedo nisso, espumou a jovem.

—Minha mãe teria vergonha do que fez — cuspiu Howl. — Ela nunca teria concordado com isso!

—Controle essa língua, garoto. — Lother murmurou, letal.

—Isso é a coisa mais ridícula que eu já ouvi! — gritou Safira, indignada. — Quer que eu lhe conte o verdadeiro motivo por ele ter me pedido a você?! Esse idiota queria atingir seu filho. Você ia me autorizar e me ligar à um psicopata pelo resto da vida!

Silêncio.

Lother franziu a testa e observou Howl, que tremia em fúria.

—Opção? — ecoou. — O que ela quer dizer com opção? Você ia rejeitar Mykaela sem me consultar para tomar uma submissa?

Safira bufou, com raiva e incrédula. É claro que era nisso que ele prestaria atenção. Seu precioso sucessor nunca poderia se dignar a trocar uma licantropa pura por uma mestiça ninguém.

O filho encarou o alfa.

—Meu lobo a escolheu.